Manual de sobrevivência no Ensino Médio brasileiro

Confesso que não posso me referir como um aluno perfeitamente exemplar para cagar dicas para você, aluno do Ensino Médio, mas creio que durante estes três anos antes de ir para o curso superior, aprendi uma porção de coisas que pode ser útil a você. Ainda que algumas ideias estejam erradas ou poderiam ser melhoradas, vou me ater a registrar aqui somente aquilo que posso, por experiência própria, dizer se funcionou ou não para mim e, no máximo, comentarei sobre coisas que eu pessoalmente penso que poderia ter feito diferente, convidando-o a experimenta-las, mas sem garantias sobre efetividade. Naturalmente atualizarei este manual, mas serão somente correções de erros: não sou mais aluno do Ensino Médio, então não sinto que possa discursar sobre novas táticas e técnicas se não posso averiguar nada na prática, e também não vou ficar como um telefone sem fio repassando o que os outros contam para mim, aqui. Que criem suas prórpias versões melhoradas do manual, no futuro!

Organização

Caderno de anotações

O que você precisa é de um caderno, grande ou pequeno, para anotar tudo: temas, provas, trabalhos e eventos, uma coisa por linha. Os temas e as atividades atrasadas você anota com caneta preta, as provas com caneta verde, os trabalhos com caneta azul, e com a caneta vermelha anote as datas e risque o que já foi feito ou já passou. Como temas e exercícios são abundantes, você não seu caderno pulverizado com escritos em cores gritantes: preto é discreto. O vermelho é interessante pois chama a atenção: logo é difícil perder as datas, e as coisas riscadas você vê só a linha vermelha e não presta atenção no que está escrito.

Este caderno precisa de manutenção. Com o tempo você vai riscar muitas tarefas e acabará com umas quantas páginas contendo apenas algumas pendentes. Quando você chegar neste ponto, arranque todas as folhas completamente preenchidas em ambos os lados, e reescreva tudo o que ainda não foi feito ou ainda não ocorreu. Ponha no início todas as provas e apresentações, e aproveite a oportunidade para pôr em ordem cronológica. Abaixo escreva os trabalhos, e por último os temas e atividades. Por último, ponha as páginas arrancadas no lixo… a não ser que você valorize ter um registro do passado… contudo, te garanto que tu realmente não vai se importar no futuro e vai acabar com pilhas de lixo.

E o que precisa ser anotado, precisamente? Novamente, tudo! Para as provas, anote além da data e, é claro, de disciplina é, também o conteúdo que cai, páginas do livro para estudar e até mesmo que horas ou qual período ocorrerá. Dos trabalhos, se for em grupo anote o seu e o dos outros, ordem de apresentação, data de entrega, o que deve ser feito, quais ferramentas utilizar para fazer, como fazer, quantas páginas ou slides deve ter, etc. Temas e atividades é o mais fácil… quais páginas ou números para fazer, e no máximo, se a pergunta deve ser copiada no caderno. Em relação à eventos, anote se precisa levar comida ou ir vestido com determinda roupa, que horas ocorre, quem vai ir, etc.

Lembre que nem sempre todas as informações são divulgadas de uma vez só: às vezes, dias depois um bilhete é enviado com mais coisas, ou algum professor responde alguma pergunta com coisas importantes, como uma dica de quais páginas estudar. Na maior parte das vezes, como você não vai ocupar uma linha inteira para anotar algo, sobra um espaço na direita para anotar mais coisas, ou então entre as linhas de duas anotações adjacentes. Faça uma letra miúda e umas flechinhas que não comam espaço e está ótimo! Se por padrão sempre deixava uma linha em branco entre cada anotação, mas penso agora que, se você notar que é muito frequente as informações de provas, eventos e trabalhos serem enviadas de pouco em pouco, daria para deixar de vez em quando mais de uma linha em branco entre duas anotações, porém, isto pode acabar virando uma enorme perda de espaço.

Para resumir, o caderno de anotações deve centralizar o registro de tudo o que deve ser feito e o que vai ocorrer. Antes disso eu anotava tudo no caderno de cada matéria, e depois precisava ficar folheando-os até encontrar a data de uma prova ou temas por fazer. No momento em que você centraliza no caderno de anotações essas informações, elimina a trabalheira de catar tudo em cada caderno, para ter um único local centralizado para rapidamente localizar o que quer, enquanto no caderno de uma matéria há trocentos quadros copiados e repostas de atividades entre cada anotação.

Se vocẽ quiser levar mais adiante ainda a centralização, você pode procurar ter aqueles cadernos com um bolsinho dentro para enfiar bilhetes e folhas de exercícios. Não precisa comprar também! depois de comprar uns quantos sem bolsinho, não quis gastar dinheiro e grampeei as duas primeiras páginas, deixando um espaço em cima! Depois eu vi que era chato catar bilhetes perdidos no fundo e não podia facilmente vasculhar o que estava dentro, então cortei as duas folhas no meio para a parte superior das folhas ficarem evidentes. Alguns colegas simplesmente deixavam as folhas de exercício e bilhetes dentro do caderno, mas aí podem ficar caindo quando você deixar o caderno em pé, o que é deveras inconveniente. Um último passo centralizador, e bem simples, é anotar os horários de aula também! Eu sempre procurei escrevê-lo ou colá-lo na primeira folha, e recomendo evitar fazer anotações na mesma folha do outro lado, pois depois de riscar tudo é foda arrancar a folha com os horários escritos. A página em branco pode mais tarde ser usada para colar horários mais atualizados ou do técnico, por exemplo.

Sobre calendários… eu nunca fui muito fã. Pelo menos não para anotações. Minha turma sempre manteve um calendário na sala de aula, e confesso que de vez em quando era muito útil quando eu ficava um tempo sem anotar nada, para me atualizar sobre trabalhos e provas, porém, os quadradinhos de cada dia são pequenos e limitados para fazer anotações compridas… tem espaço para anotar que vai ter uma ou duas provas, e de repente mais outro trabalho, mas no fim não tem como ir mais adiante anotando os conteúdos que caeem e outras informações.

Eu já cogitei utilizar algum aplicativo ou plataforma para anotar minhas tarefas e eventos futuros, mas nunca levei a ideia adiante. Simplesmente vejo problemas demais. Para comçar, às vezes para estudar você quer se isolar de distrações como a TV, celular ou PC, mas não pode porque você ainda precisa de um computador para conferir quais conteúdos caem numa prova, ou quais páginas do livro devem ser respondidas: você está preso à máquina, o que não é o caso de um caderno. Sim, daria para copiar as informações do aplicativo ou plataforma numa folha, mas se você vai ficar copiando toda hora para um folha o que deve ser feito ou o que deve ser estudado, então desencana e use um caderno onde tudo já está copiado. Outro problema, mais sério, é da integração da plataforma ou aplicativo usado: talvez você possa receber notificações no celular alertando sobre uma prova, ou os compromissos fiquem automaticamente em ordem cronológica e muito mais, mas no dia que ocorrer uma atualização que você não goste, ou os desenvolvedores abandonarem o projeto, você poderá facilmente migrar para outra plataforma? ou facilmente baixar todos os dados salvos? você pode utilizar o aplicativo offline? Um caderno nunca desatualiza. Um caderno não precisa de bateria nem conexão com a Internet. Um caderno nunca vai te decepcionar (só se ele pegar fogo).

Uma alternativa intermediária entre um caderno e uma plataforma seria anotar tudo num arquivo de texto. Não tem o problema da integração de uma plataforma, você pode salvar backups do arquivo na nuvem ou sincronizar entre vários dispositivos (usando Syncthing, por exemplo), e há vários editores de texto com visualização do arquivo com títulos, negrito, itálico, sublinhado e listas se você formatar o texto em markdown. É fácil deixar os eventos em ordem cronológica e torna fácil separar temas e trabalhos por matéria, também. Mas novamente, há o problema de precisar estar com um computador ligado, o que nem sempre é o desejado. Por isso sempre me mantive fiel ao caderno.

E a origem do caderninho para anotar tudo? Bem, eu aprendi com um mexicano que estudou na minha escola durante uns anos. Ele tinha um caderninho assim, e me mostrou como funcionava. Fiquei encantado com a ideia e no mesmo dia comecei a me organizar assim. Sujeito muito legal. Tirava notas mais altas do que nós em português.

Trabalhos em grupo

Ah, os trabalhos em grupo… e os muitos significados de trabalho. Independente de que tipo seja, organizar os membros do grupo pode ser bastante útil.

Divisão do trabalho

Identifique as diferentes coisas que devem ser feitas, e distribua cada tarefa para cada membro, de forma igual. Não precisa se preocupar com as habilidades individuais de cada um: realizar uma tarefa na qual se tem pouca prática irá ajudar em aprimorar as próprias capacidades. No caso de atividades, é bem simples: cada um faz uma parte das atividades. Se for do interesse, é possível contar cada a), b), c) etc. como atividades distintas durante a divisão. No caso de trabalhos onde um texto deve ser composto, dá para dar um capítulo para cada um fazer, ou se for um texto pequeno, um parágrafo para cada um. Tecnologias também podem ser distribuídas num trabalho: um se responsabiliza por tirar fotos e filmar, outro em formatar o documento digital, outro em editar vídeos, etc. Por último, é interessante alguém ser um tipo de líder, basicamente o cara que vai marcar encontros para fazer o trabalho, dividir as tarefas e ver quais materiais precisam ser adquiridos.

Pacto de broderagem

Esse é meu favorito. É quando não ocorre trabalho em grupo. Você combina com a sua dupla de você fazer sozinho o trabalho, e no próximo trabalho em dupla o seu colega se responsabiliza interiramente por este. É especialmente útil quando há vários trabalhos simultâneos, e a vantagem é que você pode fazer o trabalho quando quiser, sem depender de se juntar com seu colega. No final, um resume pro outro os trabalhos e um estuda o trabalho do outro, para nas apresentações ou se o professor perguntar algo, ninguém ser pego. Um modo ainda mais sofisticado é quando, após a divisão de tarefas em dois trabalhos onde você e um colega ambos fazem parte, um fazer a parte do outro. No fim das contas, o que mais importa é a confiança um no outro: a última coisa que vocẽ quer, depois de fazer um trabalho inteiro, é o outro dizer que não pôde fazer a parte dele.

Duplicação de trabalho

E se todos fizessem tudo? Isso é especialmente útil em trabalhos envolvendo matemática, como física, química e bem, matemática! Se todos fizerem todos os exercícios, depois é possível ver quais respostas estão certas, que é quando todos chegam no mesmo resultado, e fazer com mais calma quando há discordâncias no resultado final de uma questão. Mas fora desse contexto de responder perguntas… duplicação de trabalho é tempo desperdiçado.

O trabalho em dupla, em dupla mesmo

Isso ocorre quando duas pessoas se responsabilizam por fazer a mesma coisa. Nesse caso, um é escolhido como ativo e o outro como observador. O ativo é quem põe a mão na massa, fazendo os cálculos ou escrevendo texto. O observador só observa, e se ele notar algo errado ou que ele pensa que poderia ser diferente, ele conversa com o ativo para que se encaminhem na direção certa. Essa forma de trabalhar às vezes se apresenta quando há divisão de tarefas, e algum membro termina o que tem que fazer antes dos outros. Ele então, para não ficar ocioso, acompanha seus colegas em suas próprias tarefas, ajudando quando possível.

Quando fazer as coisas, e o que fazer no tempo livre

Eu gosto de pensar que devemos fazer imediatamente o que podemos deixar para depois. O professor passou atividade? Faça imediatamente. O professor passou tema de casa? Não faça em casa; faça agora. O professor passou trabalho? Comece imediatamente. Mas o trabalho é em grupo? Comecem imediatamente. Ou no recreio. Vai ter prova? Estude imediatamente. Não existe uma hora certa para fazer nada. Todas as horas são certas. E é bom isso porque uma hora não vai ter mais nada para fazer, e você vai poder curtir a vida enquanto os outros correndo atrás de trabalhos e notas, ou as férias enquanto outros estão na recuperação. O que você ganhar em pontos imediatamente, serão pontos que não precisará ganhar depois.

Mas nessa loucura de fazer tudo imediatamente, às vezes ficamos sobrecarregados com tarefas, e então a triagem começa! Nesse tipo de situação, você começa parando de fazer exercícios e temas, você só continua fazendo aqueles que valem visto, e cujos vistos valem ponto (mas você pode copiar dos outros, ou estabelecer um pacto de broderagem). Os trabalhos, você já não pode mais se dedicar a eles, e deve se decidir como prontos assim que você fez o mínimo exigido. As provas são o que realmente importa, pois são o que mais valem no trimestre. Mas preste atenção se as provas sozinhas não são o suficiente para passar no trimestre, ou se são os trabalhos que salvarão você se você foi mal nos testes.

E em tempos completamente diferentes, quando vocẽ tem tempo livre de montão, se qualifique.

Enfim, eu não te culpo se tu for gaymer, ou fica nas redes postando e curtindo merda, ou fica assistindo vídeo do YouTube, ou fica vendo séries e filmes na TV, porque tudo isso é muito bom, especialmente quando tu curte junto com outros amigos, mas se tu não passar no vestibular, não joga a culpa nas cotas, seu vagabundo.

Sim, tudo aquilo que citei antes são habilidades interessantíssimas de se ter. Elas permitem você terminar trabalhos voando, encontrar informações voando, fazer tudo voando. Computadores são máquinas. Máquinas estendem as capacidades humanas. Quando você domina o uso de uma máquina, seja um computador ou uma tesoura, você se torna mais produtivo. Mas nós mesmos somos máquinas, máquinas orgânicas, músculos ao invés de pistões, neurônios ao invés de circuitos, ossos ao invés de ferro, estômago ao invés de um motor. Nós mesmos sabermos fazer coisas também nos torna mais produtivos, mais do que saber usar uma máquina, talvez mais do que uma máquina.

Claro, nem sempre é tão simples assim aprender coisas no tempo livre. Por isso você pode fazer um curso. Tem cursinhos pequenos, de algumas horas, para habilidades menores. E tem os cursos técnicos, com diploma e tudo, que pode até dar um baita emprego. Eu fiz técnico em informática. E o bom de fazer um curso é que vocẽ pode acabar descobrindo qual faculdade fazer. Eu, no caso, descobri que Ciência da Computação é minha vibe. Conheço gente que fez cursos online também, tipo videoaulas, mas não posso comentar a respeito, porque nunca fiz nenhuma. E tem os cursinhos de línguas estrangeiras. Eu posso me dizer fluente em inglês, graças às aulas que fiz, e que também sei me virar no alemão.

Como saber se você estudou o suficiente para uma prova, e como quebrar provas

Você já se sentiu insano, ensandecido, maluco e biruta quando preste a realizar uma prova? E ao começar a prova, você sentir um vigor infinito e resolver uma questão atrás da outra, sem tirar o lápis da página por mais de um segundo, escrevendo próximo do limite do quão rápido você consegue mexer a mão e os dedos, respondendo cada pergunta sem um pingo de hesitação, como se estivesse tomado de uma certeza absoluta e inquestionável sobre todos os fatos? E nesse ritmo frenético e incansável, terminar uma prova de duas horas em vinte minutos? e entregar a prova com presunção, tamanha sua confiança em si mesmo de que está tudo certo, e do quão fútil seria revisar a prova nem que fosse dois minutos, mesmo que você fosse ficar mais de uma hora sem fazer nada sentado na sua cadeira? E no fim você gabaritar a prova, exatamente como você previu, acima da expectativa de qualquer um?

Você pode não gostar, mas é exatamente assim que você se sente quando você está 100% preparado para uma prova. Qualquer coisa menos do que isso, e você não estudou o suficiente.